A Invenção que Virou Maldição: A História dos Testes Padronizados
- Escola Circular
- 16 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
"Bom dia, meninos e meninas." Essa frase simples, repetida milhões de vezes em salas de aula ao redor do mundo, carrega consigo mais de um século de condicionamento para a obediência. E é exatamente por aí que Seth Godin, o famoso empresário e filósofo que usa óculos coloridos e nunca para de questionar o mundo, começa sua poderosa reflexão sobre educação no TEDx: "Stop Stealing Dreams" (Parem de Roubar Sonhos).
A Pergunta que Ninguém Faz
Antes de mergulhar na história fascinante (e perturbadora) dos testes de múltipla escolha, Godin nos confronta com algo ainda mais fundamental: Para que serve a escola?
Parece simples, não é? Mas a verdade é que raramente paramos para pensar nisso de verdade. Todos acham que sabem a resposta, mas será que sabemos mesmo? E mais importante: será que concordamos sobre ela?
Frederick J. Kelly e a Invenção do Teste Padronizado
É aqui que entra Frederick J. Kelly, o homem que mudou a educação para sempre – e não necessariamente para melhor. Por volta da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos enfrentavam um problema prático: uma enorme quantidade de estudantes entrando no sistema escolar (que havia sido expandido para incluir o ensino médio) e a necessidade urgente de "classificá-los" de alguma forma.
Kelly teve uma ideia: criar um teste padronizado. Algo rápido, eficiente, que pudesse ser aplicado em massa e corrigido facilmente. Nascia ali o teste de múltipla escolha e, com ele, o famoso lápis número 2.
A Reviravolta que Poucos Conhecem
Mas aqui está o que pouca gente sabe: Kelly criticou e abandonou sua própria invenção apenas dez anos depois. Ele percebeu algo fundamental: o teste padronizado era "cru demais para ser usado" – grosseiro, tosco, inadequado para avaliar verdadeiramente o aprendizado humano.
Era uma ferramenta de emergência, criada para um momento específico de crise. Nunca deveria ter se tornado a espinha dorsal avaliativa do sistema educacional.
E o que aconteceu quando Kelly teve a coragem de falar contra sua própria criação, de admitir publicamente que aquilo não deveria ser usado como estava sendo? Ele foi ostracizado. Perdeu seu cargo como presidente de universidade. Foi punido por ousar questionar um sistema que "estava funcionando" – mesmo que funcionando significasse apenas processar pessoas em massa, não educá-las de verdade.
Por Que Isso Importa Hoje?
A história de Kelly nos mostra algo profundo sobre como chegamos onde estamos. Os testes padronizados, criados como solução temporária há mais de 100 anos, ainda dominam nosso sistema educacional. Tentamos medir inteligência, potencial e valor através de uma ferramenta que o próprio criador considerou inadequada para esse propósito. E pior, no Brasil não só tentamos medir, como sentenciamos o futuro da criança com base no resultado desses testes.
E tem mais: como Godin brilhantemente aponta, esse sistema nasceu para um propósito muito específico – treinar pessoas para trabalhar em fábricas. A escola que conhecemos foi desenhada para ensinar obediência, conformidade, para criar trabalhadores intercambiáveis que seguissem ordens sem questionar.
Algo que talvez fizesse sentido na era industrial. Mas e agora?
Trabalho ou Arte?
Uma das frases mais potentes da fala de Godin ressoa profundamente: "Se é trabalho, tentamos descobrir como fazer menos. Se é arte, tentamos descobrir como fazer mais."
Quando colocamos crianças naquela "fábrica chamada escola", construída para doutriná-las à conformidade, por que nos surpreendemos quando elas perguntam: "Isso vai cair na prova?". Por que se cair eu talvez estude, se não cair vou procurar algo mais interessante pra fazer.
Um artista não pergunta se pode fazer uma tela a menos esse mês. Um músico não se pergunta se pode compor uma canção a menos. Quando é arte, quando há paixão e significado, queremos fazer mais, não menos.
Mas quando é trabalho – e a escola se tornou trabalho compulsório para crianças de sete anos – é claro que elas querem fazer o mínimo possível.
O Que Isso Significa para Nós
Na Escola Circular, essa reflexão nos toca profundamente. Não estamos interessados em processar crianças, em moldá-las para que se encaixem em gabaritos padronizados. Não queremos que nossos alunos perguntem "isso cai na prova?" para decidirem se vão se dedicar ou não, mas sim que perguntem "posso explorar mais isso?", "posso ir mais fundo?", "posso tentar de novo de um jeito diferente?"
A história de Frederick J. Kelly nos lembra que muitas das estruturas que tomamos como certas, como inevitáveis, foram inventadas por pessoas – e podem ser reinventadas. Kelly mesmo tentou alertar o mundo sobre os limites de sua criação. Não deveríamos finalmente ouvi-lo?
Convite para Reflexão
Se você tem 16 minutos (especialmente os primeiros 10:37, que são absolutamente imperdíveis), assista abaixo ao TED de Seth Godin. Deixe que ele provoque você, incomode você, faça você pensar. E nos conte nos comentários o que achou.
E caso ache interesssante entre em contato. Visite a Escola Circular e descubra como os testes e as provas são feitos por aqui. Entenda por que nossa metodologia avaliativa provavelmente faria Frederick J. Kelly pular de alegria e festejar. Aposto que seu filho e/ou filha também vão gostar.



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